terça-feira, 15 de outubro de 2024

Comentando Ken Wilber: metafísica na obra de Ken Wilber: com metafísica, fora da metafísica e de volta à metafísica parcialmente - Parte I


O objetivo do presente artigo está em resumir como a metafísica aparece na obra de Ken Wilber, como ele a abandona e o modo como ele a retoma parcialmente. Nesta primeira parte focaremos no aparecimento e abandono da metafísica. Em futura parte deste artigo concentraremos em como ele retoma em parte a metafísica na sua teoria. 


Ken Wilber (1977, p. 11) comenta em seu primeiro livro, o "O Espectro da Consciência", dizendo que: "'Não existe uma ciência da alma sem uma base metafísica e sem remédios espirituais à sua disposição'" (itálicos no original) e que ele concorda com essa afirmativa. E Wilber (1977, p. 11) coloca esse livro tendo como objetivo "apoiar e documentar esta proposição de Frithjof Schuon". Após afirmar isso, Wilber (1977, p. 11)  acrescenta que os sábios e mestres de todos os lugares e tempos estão de acordo com essa citação.


Este texto de "O Espectro da Consciência", segue com Wilber (1977, p. 11) falando da existência de uma "ciência da alma" reducionista - que de forma mais amigável prefiro chamar: de uma "ciência da alma focada" ou "ciência da alma centrada"* ou mesmo como "circunscrita". Ele (WILBER, 1977, p. 11)  se coloca como alguém que busca uma "ciência da alma" mais integral, uma "ciência da alma" mais ampla, que considera a consciência de forma "pluridimensional" e não "unidimensional".


Ele (WILBER, 1977, p. 11) não se coloca contra a "ciência da alma" atual (isso ele escreve em 1976 D. C., mas talvez continue válido em relação à ciência do ano 2024 D.C.), mas à "monopolização" disso por essa ciência, vamos dizer moderna.


Então ele declara que considera o ser humano "pluridimensional", em outras palavras a consciência como composta de diversos "níveis", não exclundentes, mas sim "complementares" (WILBER, 1977, p. 11).


Cada escola de psicologia, psicoterapia e religião (aqui compreendo que ele coloca a palavras "religião" em seu sentido semântico de espiritualidade, quero dizer, como algo possível de encontrar dentro das instituições religiosas, mas que está além delas, compreendendo o dito "espiritual, mas não religioso") como representes de um determinado "nível", assim mais ou menos correto em relação à esse nível ou dimensão e complementar às outras e incorreta em relação às outras dimensões ou níveis (WILBER, 1977, p.11).


Assim, podemos incluir, integrar e sintetizar:  "Jung, Freud, Maslow, May" e Berne, entre outros - enquanto na espiritualidade a inclusão adiciona de Buda à Krishnamurti (WILBER, 1977, p. 11). Ele complementa dizendo isso e coloca a raíz da psicologia, ou ciência da alma, como tendo base na metafísica, mas seus galhos, que considero melhor aqui chamar de desdobramentos*** não estão invalidados, acrescentando que a consciência cósmica está como fonte de sustentação de todos os níveis ou dimensões do ser humano.


Wilber (1977, p. 11) comenta que mudou sua visão sobre o espectro da consciência, coisa que ele mesmo coloca diretamente dizendo que mudou suas ideias (isso está escrito na Introdução do livro "O Espectro da Consciência").


Porém anos depois, talvez décadas ele mudou a sua ideia. Já que no livro "Espiritualidade Integral" (WILBER, 2006), ele busca afastar a metafísica e ainda assim validar como importante a espiritualidade de acordo com os critérios de validação do pensamento moderno, a ciência da alma moderna e a visão pós-moderna. Mas em seu livro "A Religião de Amanhã" (originalmente e ainda sem versão traduzida: "The Religion Of Tomorrow") ele retoma a metafísica em alguns pontos (WILBER, 2017).


Nesta primeira parte do artigo iniciamos o comentário em relação ao conteúdo do primeiro livro de Ken Wilber, "O Espectro da Consciência", e alguns  temas desse livro, como: (1) indo de sua de visão de mundo tendo como base a metafísica, (2) a "ciência da alma" como ele propões e a proposta da "ciência da alma", que chamo aqui, de "circunscrita", (3) a visão includente e complementar que ele sugere e (4) a "religião" em termos de espiritualidade. Seguimos daí para a mudança no pensamento de Wilber para uma visão não metafísica, ou melhor "pós-metafísica", e simplesmente citamos o retorno parcial dele à metafísica.


Na próxima parte deste artigo mostraremos como Ken Wilber utiliza a metafísica no livro "A Religião de Amanhã".


* Aqui não estou falando da "Abordagem Centrada na Pessoa" ou da "Terapia Centrada no Cliente". Não estou me referindo à Carl R. Rogers ou mesmo ao trabalho, à teoria, à obra ou à essa abordagem.


** Aqui ele não usa "dimensão" no sentindo e significado que usará posterioremente com a criação da Teoria Integral, "dimensão" associada ao conceito da ideia de "quadrantes"). 


*** Não, não estou falando, aqui, de "projeção astral" ou "viagem astral".


Referências


WILBER, Ken. Espiritualidade Integral: uma nova função para a religião neste início de milênio. Tradução: Cássia Nasser. São Paulo: Aleph, 2006.


WILBER, Ken. O Espectro da Consciência. São Paulo: EDITORA CULTRIX LTDA., 1977.


WILBER, Ken. The Religion of Tomorrow: A Vision for the Future of the Great Traditions - More Inclusive, More Comprehensive, More Complete. Boulder: Shambala, 2017.

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